Marcelo Salles – Luis Fernando Verissimo, por favor, diga-nos onde você começou a trabalhar e por onde passou...
Eu comecei a trabalhar em jornal muito tarde, com mais de trinta anos. Eu nunca tinha escrito nada. Comecei na Zero Hora, de Porto Alegre, em 1966. Naquele tempo não precisava ter o diploma de jornalista. Depois eu passei pra Folha da Manhã, lá de Porto Alegre também e, depois de cinco anos, voltei para o ZH. Depois fui pro JB, pro Estado de São Paulo e... Foi assim, o começo foi assim...
Malu Muniz – Você presenciou o jornalismo da década de 60. É muito diferente o jornalismo de hoje do daquela época?
Sem dúvida...
Malu Muniz – Até pela quantidade de jornais, pela variedade... Eu queria que você comentasse um pouco essas diferenças.
A principal diferença é que naquela época o jornalismo era quase um "bico" para as pessoas. Elas tinham emprego no governo, faziam outras coisas e faziam jornalismo também. Havia uma certa promiscuidade do jornalismo com o governo, que ainda existe, claro, mas naquela época era muito mais. Hoje o jornalismo se profissionalizou, sem dúvida. É uma profissão. Naquela época, era um bico, as pessoas faziam jornalismo como segundo emprego, uma coisa mais amadorística.
Malu Muniz – Você usou o termo "promiscuidade" para falar da relação entre jornalismo e política. Você não acha que hoje em dia essa relação está mais velada e, por isso, menos perceptível?
É que hoje essa relação é diferente, né? Porque as grandes empresas jornalísticas têm suas estratégias, seus interesses como grande empresa e, nesse sentido, são oficialistas, têm uma relação com o governo. Mas, na época, o camarada podia trabalhar no palácio do governo durante o dia e de noite ir para o jornal escrever. Obviamente, não ia criticar o governo pra não perder o emprego. Hoje não tem esse tipo de relação tão espúria. Mas tem a combinação dos interesses da empresa com os do governo, que é uma forma velada de promiscuidade.
Malu Muniz – No caso, seria mais perigosa para o leitor?
Bom, nos dois casos é uma coisa meio disfarçada, o leitor não fica sabendo.
Bruno Zornitta – Como é a questão da liberdade de expressão em um jornal como O Globo, dentro desse contexto do Conselho Federal de Jornalismo?
Bom, você sabe que nós tivemos um período em que havia censura ostensiva da imprensa, com o censor dentro do jornal. Isso na época da ditadura militar e, em 1974, isso começou a mudar. Houve uma liberação gradual e, desde então, não tem havido mais esse tipo de censura, do camarada ir no jornal e falar: "Não, isso não pode sair". Eu ainda peguei essa fase, tinha que ter sempre uma crônica na reserva... Mas isso acabou, um pouco antes de acabar a ditadura e, desde então, eu, por exemplo, nunca tive nenhum tipo de restrição, sempre escrevi o que queria, tanto na Zero Hora, como aqui no JB, depois no Globo.
Bruno Zornitta – Agora, com relação à censura e ao capital, dentro dessa questão do CFJ, a criação desse órgão não interessa aos empresários do setor...
Marcelo Salles – Só aproveitar para colocar dentro dessa mesma questão o caso do Carlos Costa. O Bob Fernandes deu na CartaCapital, você deu no Globo, mas raros foram os colunistas que falaram nisso, um tema importantíssimo, que mexe com a nossa soberania. O ex-chefe do FBI disse que eles compram a imprensa sim, compram a PF sim. Por que não virou manchete nos jornais? Exato... Eu não tinha terminado a resposta à outra pergunta, o que eu queria dizer é que acabou a censura, mas obviamente continua havendo um controle sobre o noticiário, dependendo muito dos interesses das empresas jornalísticas. Então, não há censura, proibição, mas há um controle. Para o jornal não interessa que saiam certos tipos de notícia e então não se faz uma cobertura. Às vezes, tem um ou outro colunista que tem liberdade de escrever o que ele quiser, mas, mesmo assim, a posição oficial do jornal é um tipo de controle da informação. E essa questão de haver um conselho para disciplinar o jornalismo é uma forma, se aceitável, de justamente acabar com esse quase monopólio da informação de poucos grupos empresariais, ligados à comunicação, pertencentes a umas poucas famílias, que têm o controle da informação. A minha posição pessoal é que é muito perigoso a gente estabelecer qualquer tipo de precedente assim pra disciplinar a imprensa, talvez houvesse outro meio para se chegar a isso. E esse quase monopólio da informação não ocorre só no Brasil; é no mundo todo. O poder que tem esse australiano [Rupert] Murdoch [dono do grupo Fox], isso é um tipo de censura, de controle, de monopólio da informação.
Malu Muniz – Como você vê o fruto dessa informação? Você acha que a população é mais uma velhinha de Taubaté ou ela já é capaz de criticá-la? Porque a gente lida muito com essa questão da capacidade da população de criticar aquilo que lê.
Eu acho que as pessoas têm um senso crítico. Eu não gosto quando me dizem que eu sou um formador de opinião. Qualquer pessoa tem suas opiniões, independentemente do que ela lê, mas é óbvio que a força da imprensa, principalmente da televisão, o poder que ela tem de formar opiniões, de pessoas que não sabem qual a opinião delas, acabam indo atrás da grande imprensa. Mas eu acho que, em geral, as pessoas são mais sensatas, mais inteligentes do que se pensa. Mas é uma briga. A força da grande imprensa é difícil de se combater.
Marcelo Salles – No início do governo Lula, você escreveu um texto sobre um certo cavaleiro que foi preparado durante anos para enfrentar um dragão, mas não foi preparado para o caso de o dragão gostar dele. Hoje esse cavaleiro não estaria gostando do dragão?
É, eu acho que há uma certa decepção, minha e de muita gente com o governo Lula. Ele passou todos aqueles anos do governo FHC, do Collor, falando sobre o neoliberalismo, da economia de mercado, da dependência do Brasil ao capital especulativo e tudo mais. E chega o PT no governo e adere ao modelo econômico neoliberal, é uma certa decepção. Pode dizer: "Bom, tem que ter um pouco de paciência, porque eles não podem fazer uma ruptura imediata com o passado, tem que ser uma coisa gradual, não pode espantar os investidores, os banqueiros...". Mas não se vê nenhum sinal de que isso vá mudar, né? O camarada vivia dizendo que ia enfrentar o dragão e, quando entrou na caverna para enfrentá-lo, saiu de lá amigo do dragão. Pode ser estrategicamente defensável, mas não sei não...
Marcelo Salles – Eu percebo você como uma pessoa muito sensível para analisar os temas todos. Vendo o Brasil, vendo o mundo, me parece que o humanismo está perdendo. As causas humanistas estão sendo derrotadas para tudo o que é feito em nome de dinheiro, de mercado. Por que isso acontece, por que o ser humano está perdendo a sua humanidade?
Pois é, eu também não sei. É cada vez mais a força do dinheiro, cada um querendo ganhar para si e esquecendo os outros. Tem um pouco a ver também com o fracasso da experiência socialista, que, na URSS e em outros países, descambou para o autoritarismo. Isso, de certa maneira, desmoralizou algumas teses de esquerda. Mas para mim continua valendo aquela frase do Engels: "A única alternativa é entre o socialismo e a barbárie". A gente, hoje, talvez não saiba o que seja socialismo, mas barbárie a gente sabe o que é.
Malu Muniz – Você, na maioria de seus textos, trabalha exatamente com o humor. Você acha que o humor é uma forma eficiente de se incutir uma crítica?
O humor é uma linguagem. Você pode falar de tudo, coisas mais e menos sérias, mas usando uma linguagem mais leve, mais atraente. As pessoas gostam de ler uma coisa bem-humorada. Mas às vezes, há certos riscos, por exemplo, a ironia, que é sempre perigosa, porque muitas vezes a pessoa não entende a ironia. Tem que explicar que aquilo é ironia. Mas, fora isso, o humor é uma linguagem que serve para tudo.
Marcelo Salles – Bom, mais uma CPI [Banestado] vai chegando ao fim e, não sei se você escreveu a "Caderneta da dona Loló", pensando nisso, mas acredito que sim. A caderneta, para quem não sabe, tinha os nomes de todas as meninas da cidade que faziam programas e os nomes dos seus clientes. E um coroinha acha e leva para o padre, que é moralista...
...e o padre vai denunciar todos os clientes da dona Loló e, quando ele abre a caderneta, ele vê que tem todas as grandes figuras da cidade, passando pelo prefeito, pelo juiz de direito e até o principal doador da igreja está na caderneta de dona Loló. Ele, obviamente, fecha a caderneta e não faz denúncia nenhuma. Então, tem a ver com essa CPI, que está investigando essa prática comum do empresariado, dos banqueiros, que é mandar dinheiro para fora do país e, quando começaram a aparecer alguns nomes de peso, decidiram que era melhor não continuar com ela. E acho que estão matando a CPI, os caras já liquidaram com ela. Ia aparecer nome de banqueiro, de empresário conhecido. Então, era melhor não mexer nessa.
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